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MELHOR É DAR QUE RECEBER

Criado por Walberto Magalhães Sales Em Artigos 18 mai 2026

Ao propor uma reflexão sobre esta declaração de Jesus, “Mais bem-aventurado é dar do que receber”, quero começar contando uma parábola e prometendo que a terminarei com um poema.

A parábola é conhecida e muitas vezes adaptada como ilustração; há quem se refira a ela atribuindo a ocorrência a um príncipe inglês, certamente por conta da referência cristã. É um texto antigo sobre a relação entre a generosidade e a fraternidade, que diz mais ou menos assim:

Um príncipe, ao sair para passear, foi abordado por um mendigo que lhe pediu esmola, dizendo: “Faça a caridade a um pobre irmão.” O príncipe, tentando parecer arrogante, respondeu: “Eu não tenho irmãos pobres”, mas o mendigo insistiu: “em Cristo somos todos irmãos”.

Convencido, o príncipe deu uma moeda de ouro ao homem e repetiu o gesto por dez dias seguidos. No décimo primeiro dia, o príncipe decidiu testar a sinceridade do mendigo: disfarçou-se de pobre e pediu uma esmola ao mesmo homem, dizendo: “Faça a caridade a um irmão.”

O mendigo, agora com dez moedas de ouro no bolso, reagiu com raiva e disse: “Eu não tenho irmãos.”

Nesse momento, o príncipe revelou sua identidade e concluiu que o homem só era "irmão" de príncipes quando precisava ganhar algo, e tomou de volta as moedas que havia dado.

Pensando nesta parábola, voltemos ao texto bíblico do início. Nele, o apóstolo Paulo está se despedindo dos líderes da igreja de Éfeso e oferecendo-se como exemplo de quem trabalhou não apenas para si, como também com o propósito de ajudar os necessitados. Na NVI, o texto diz: “Em tudo o que fiz, mostrei a vocês que, mediante trabalho árduo, devemos ajudar os fracos, lembrando as palavras do próprio Senhor Jesus, que disse: 'Há maior felicidade em dar do que em receber'.” Este é um entre muitos textos das Escritura onde a generosidade cristã é tratada. Os Evangelhos registram outros ensinos de Jesus que se harmonizam perfeitamente ao princípio de que “é melhor dar do que receber.”

Em certa ocasião, Jesus ensinou como seus seguidores deviam auxiliar os necessitados, não com o intuito de serem reconhecido pelos homens, mas com o simples objetivo de honrar a Deus, demonstrando misericórdia aos que necessitam.

Quando, pois, você der esmola, não fique tocando trombeta nas sinagogas e nas ruas, como fazem os hipócritas, para serem elogiados pelos outros. Em verdade lhes digo que eles já receberam a sua recompensa. ³ Mas, ao dar esmola, que a sua mão esquerda ignore o que a mão direita está fazendo, ⁴ para que a sua esmola fique em secreto. E o seu Pai, que vê em secreto, lhe dará a recompensa. (Mt 6.2-4).

Em outra ocasião, Jesus também ensinou que devemos ser generosos não apenas com quem conhecemos, mas também com desconhecidos e pessoas que jamais poderão nos retribuir: “Pelo contrário, ao dar um banquete, convide os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos, ¹⁴ e você será bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensá-lo. A sua recompensa você receberá na ressurreição dos justos.” (Lc 14.13,14).

Mais do que isso, através da Parábola do Bom Samaritano (Lc 10.25-37), Jesus ensinou que a generosidade deve ser estendida a qualquer um, seja ele quem for, até mesmo a alguém que, supostamente, seja um desafeto nosso.

O Senhor Jesus Cristo é o maior exemplo de generosidade. A Bíblia diz que Jesus se fez pobre para nos tornar ricos: “Pois vocês conhecem a graça do nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vocês, para que, por meio da pobreza dele, vocês se tornassem ricos.” (2Co 8.9). Ele esvaziou-se de algumas de suas prerrogativas como Deus para tornar-se servo e ser encontrado na forma de homem.

que, mesmo existindo na forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus algo que deveria ser retido a qualquer custo. ⁷ Pelo contrário, ele se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se semelhante aos seres humanos. E, reconhecido em figura humana, ⁸ ele se humilhou, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. (Fp 2.6-8).

O ensino de Jesus é taxativo quanto ao caráter abençoador da generosidade: “Mais bem-aventurado é dar que receber.” (At 20.35). Esse versículo também pode ser traduzido por: “Melhor coisa é dar do que receber”; ou: “Há maior felicidade em dar do que em receber”; e ainda: “É mais abençoado dar do que receber.” Obviamente, todas essas traduções enfatizam de forma clara que o ensino de Jesus exalta a virtude da generosidade, ao mesmo tempo em que reprova o egoísmo.

O egoísta é aquela pessoa que não vê proveito em compartilhar o que tem. Mas o exato oposto de ser egoísta é ser altruísta, abnegado, generoso; é considerar as necessidades dos outros semelhantes às suas próprias necessidades.

É justamente esse tipo de atitude humilde que os crentes são convidados a demonstrar. Ao fazerem isso, eles se mostram imitadores de Cristo: “Tenham entre vocês o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus,” (Fp 2.5). Nesse sentido, é melhor dar do que receber, pois, ao exercitar a generosidade, os crentes experimentam o mesmo sentimento que há em Cristo e repetem seu exemplo.

No grego original, a palavra usada para "feliz" ou "bem-aventurado" é makários, que descreve uma satisfação plena e divina, independente de circunstâncias externas: alegrar-se como Deus. Portanto, é possível destacar pelo menos três princípios espirituais da prática desta bem-aventurança:

A imitação de Deus. Deus é, por natureza, um doador (o exemplo máximo é João 3.16). Quando doamos, agimos em harmonia com a nossa imagem e semelhança ao Criador. O egoísmo nos afasta dessa natureza original; a generosidade nos aproxima dela.

A libertação da idolatria ao dinheiro. Dar é um exercício de liberdade. Ao abrir a mão, você declara que o objeto, o bem material ou o dinheiro não têm poder sobre você. É um antídoto contra o “Mamom (a riqueza como ídolo), provando que sua segurança vem de Deus e não das posses.

A prosperidade pela Economia do Reino. Na lógica bíblica, quem retém acaba com menos, e quem espalha recebe mais: “Uns dão com generosidade e têm cada vez mais; outros retêm mais do que é justo e acabam na pobreza. ²⁵ A pessoa generosa prosperará, e quem dá de beber terá a sua sede saciada.” (Pv 11.24,25). Dar não é uma perda, mas um investimento espiritual que gera alegria imediata no espírito e prosperidade para o futuro.

Há também uma bênção em receber. É preciso entender que o princípio de que é melhor dar do que receber não significa que aqueles que dão são mais abençoados, sempre, do que aqueles que recebem. Porém, são mais abençoados na ocasião da ação. O escritor aos hebreus é categórico: “Ora, sem contradição alguma, o menor é abençoado pelo maior.” (Hb 7.7).

Então, quando alguém compartilha o que tem com aquele que necessita, tanto o doador quanto o receptor são verdadeiramente abençoados. O doador é abençoado ao cumprir a vontade de Deus; é abençoado ao se parecer cada vez mais com Cristo em suas atitudes; é abençoado ao servir de instrumento para que a misericórdia e a provisão do Senhor alcancem os necessitados, porque muitas vezes Deus cumpre os seus propósitos através de nós. Por outro lado, o recebedor também é abençoado através do donativo, do auxílio e do socorro que recebe das mãos daquele que dá com generosidade. Assim, Deus é glorificado tanto na vida daquele que dá como na vida daquele que recebe.

Contudo, quando Paulo resgata a frase de Jesus, ele está fixando o que Jesus estabeleceu: receber é bom, porém dar é muito melhor. Desta forma, os discípulos de Cristo devem querer prioritariamente doar, esforçando-se para fugir da condição de necessitar. Mas quantos hoje creem legitimamente nesta verdade ensinada por Jesus e reafirmada por Paulo?

Tanto Jesus como o apóstolo praticaram e se ofereceram como exemplo; contudo, quantos hoje estão animados em trabalhar para suprir suas próprias demandas e ajudar aos necessitados? Pior: quantos escolheram a condição de necessitados, estão esperando para receber, estão murmurando a falta de doadores, estão invejando a prosperidade dos que trabalham? Para muitos, no Brasil de hoje, Paulo era um otário que trabalhava para se sustentar e ajudar os outros. O mote de agora é fazer protesto, invadir fazendas e casas dos que trabalharam para conseguir. O roubo, o saque, a usurpação do bem alheio hoje atendem pelo nome de “justiça social”. Saibam, pois, quem quiser ouvir: a tal justiça social leva para o inferno, de acordo com o evangelho de Cristo. Fuja desta tentação; não queira ser mais “esperto”, queira ser crente, ser fiel, ser abençoador e ser próspero.

Seja um doador. A generosidade não depende de riqueza material. “Ninguém é tão pobre que não possa doar.” A doação pode assumir formas como tempo, amor, esperança, sorrisos, enriquecendo quem doa tanto quanto quem recebe. Nem mesmo a verdadeira pobreza impede o compartilhamento do que se possui:

Doe tempo e atenção. Neste mundo hiperconectado, o recurso mais escasso é a atenção. “Dar”, hoje, pode significar ouvir alguém sem olhar para o celular ou dedicar tempo para ensinar o que sabe para uma pessoa mais jovem, sem esperar receber em troca.

Troque um luxo supérfluo pela contribuição com uma causa;

Pare de esperar que outros venham tornar real seus sonhos e comece a ajudar tornar real os sonhos de outros. Troque a expectativa de felicidade do ato de receber para o de transbordar. 

Em resumo, a frase de Jesus sugere que a felicidade do receptor é temporária, pois depende do objeto recebido, enquanto a felicidade do doador é permanente, pois nasce de quem ele se tornou.

Só para cumprir com o que prometi no início, vamos ao poema.

O texto seguinte é uma tradução do inglês, do poema 50 da obra Gitanjali, de Rabindranath Tagore, Nobel de Literatura de 1913. É um dos textos mais profundos sobre a natureza da doação e, por isso, deu origem a muitas adaptações na forma de parábolas. O eu poético é um mendigo.

Eu tinha ido de porta em porta, pedindo esmolas no caminho da aldeia, quando a tua carruagem de ouro apareceu ao longe, como um sonho magnífico, e eu me perguntei quem seria aquele Rei de todos os Reis!

Minhas esperanças voaram alto e pensei que meus dias ruins haviam acabado. Fiquei à espera de esmolas que seriam dadas sem que eu pedisse, e de tesouros espalhados por todo lado no pó.

A carruagem parou onde eu estava. Teu olhar caiu sobre mim e desceste com um sorriso. Senti que a sorte da minha vida havia chegado enfim. De repente, tu estendeste a tua mão direita e disseste: “O que tens tu para me dar?”

Ah, que brincadeira real foi essa, estender a mão a um mendigo para pedir! Eu fiquei confuso e permaneci parado em silêncio; então, da minha sacola, tirei lentamente um pequeno grão de milho e dei a ti.

Mas qual não foi a minha surpresa quando, ao fim do dia, esvaziei minha sacola no chão e encontrei um grão de ouro no meio daquela pobre pilha. Chorei amargamente e pensei: “Quem me dera ter tido o coração de te dar o meu tudo!”

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